A “desterritorialização da heterossexualidade” – articulando Beatriz Preciado e Linn da Quebrada

linn

Foto/frame do vídeo “blasFêmea – Mulher”. Autor: desconhecido.

Por Marcus Paulo de Freitas

A partir das discussões promovidas pelo movimento queer ou pós-feminista, pretendo analisar brevemente a canção e vídeo de “blasFêmea – Mulher”, composta por Linn da Quebrada, a partir da perspectiva teórica da autora Beatriz Preciado, em seu artigo “Multidões Queer: notas para uma política dos ‘anormais’” (2011). Sendo o foco dessa articulação a categoria “gênero” e as formas de subjugação sexopolíticas, o objetivo desse texto é pensar o corpo queer enquanto “desterritorialização da heterossexualidade”, tanto por meio da teoria feminista, quanto pela performance de (terrorismo de) gênero proposta por Linn da Quebrada.

Se autonomeando “bicha, trans, preta e periférica. Nem ator, nem atriz, atroz. Performer e terrorista de gênero”¹, Linn da Quebrada, 25 anos, é ativista do movimento LGBT, ou melhor seria dizer – em suas palavras – movimento TLGB (dando destaque a letra da sigla que corresponde às travestis, transsexuais e transgêneros). Através do funk, Linn reclama o direito à vida para toda comunidade TLGB no país que mais a mata no mundo. Segundo ela, em um vídeo publicado pelo canal Melissa Channel², “existem tantos gêneros e tantos sexos quanto corpos, só que a gente tá habituado em pensar apenas dois” e por isso há opressão, uma vez que “a sociedade só sabe tratar dois tipos de pessoa: homens e mulheres. Se você não se enquadra em nenhum dos dois, você me deixa numa situação que eu não sei como te tratar (…) eu posso te tratar como um nada”, aponta Linn, que defende o que chama de “terrorismo de gênero” como forma de se posicionar frente ao “CIStema”. Quanto ao por quê de utilizar a expressão “terrorismo de gênero”, Linn afirma:

Será que não fomos por tempo demais inofensivas? Não está na hora de a gente passar a (…) assustar? E também a se assustar, se pôr em risco? Por isso me coloco nessa posição: eu quero duvidar da imagem consolidada há tanto tempo no espelho. Eu quebro esse espelho para que possa me reinventar. É preciso ter muita coragem para sair como eu saio na rua, porque as pessoas não matam só com faca ou com balas. O discurso também mata. Os olhares pelas ruas também nos matam e nos oprimem, e é preciso que todos os dias eu mesma me encoraje para poder ser. (Trecho retirado de entrevista concedida ao Portal G1 em 12 de setembro de 2016)

Em 14 de abril de 2017, Linn da Quebrada divulgou em seu canal oficial no Youtube, o vídeo “blasFêmea | Mulher”, um curta metragem a partir de sua composição “Mulher”. Numa análise breve, o vídeo retrata uma personagem travesti – interpretada pela própria Linn da Quebrada – que ao ser agredida por dois homens é socorrida por diversas mulheres (cisgênero e transgênero).

Segundo PRECIADO (2011), “o conceito de gênero é, antes de tudo, uma noção sexopolítica” (p. 13) e vem sendo utilizado como instrumento teórico, a partir de 1980, para conceitualizar a construção social e a fabricação histórica e cultural da diferença sexual, pontos relevantes no debate entre feministas “construtivistas” e feministas “essencialistas” acerca da feminilidade enquanto essência natural. Para a autora, o corpo não é somente um dado passivo sobre o qual age o biopoder, mas antes, potência política que torna possível a incorporação dos gêneros (PRECIADO, 2011). Em sua música “Mulher”, Linn da Quebrada também aponta o corpo como potência política, enxerga-o “como uma ocupação, apontando para um processo que a mesma reconhece em si, o corpo, “está sempre em desconstrução, é um processo inacabado que a mesma não deseja finalizar, trata-se de “uma estética que não é estática, é uma estética que se move, que é trânsito, que é trans”.

Para PRECIADO (2011), a sexopolítica dos corpos trata-se não somente de um espaço de poder, mas “sobretudo, o espaço de uma criação na qual se sucedem e se justapõem os movimentos feministas, homossexuais, transexuais, intersexuais, transgêneros” (p. 14), enquadrando esse corpo queer como uma “desterritorialização” da heterossexualidade. Uma vez que a heterossexualidade seria não somente uma prática sexual, mas  um regime político que faz parte da administração e controle dos corpos. Linn, aponta em “Mulher”, a fuga a essa território da heterossexualidade, o eu lírico de sua canção “não quer pau, quer paz. Segundo PRECIADO (2011), o corpo hétero é o resultado de uma divisão da carne, e cada órgão é definido por sua função, o que ocasiona uma sexualidade territorializada da boca, da vagina, do ânus. Desse modo, o pensamento da norma hétero “assegura o lugar estrutural entre a produção da identidade de gênero e a produção de certos órgãos como órgãos sexuais e reprodutores” (p. 14). Linn subverte essa territorialização, a personagem de “Mulher”, “ tem cara de mulher, tem corpo de mulher, tem jeito, tem bunda, tem peito e o pau de mulher, desse modo, o corpo da norma hétero que define mulheres como portadoras de orgão sexual vagina, é transmutado, e no lugar dele, há o corpo da travesti, que é “amapô³ de carne e osso.

Quer seja em sua canção “Mulher”, ou em tantas outras de sua carreira – tais como “Enviadecer” e “Bicha Preta” – a proposta de Linn da Quebrada é transgredir a norma hétero, demonstrando que não há apenas o padrão binário, o que, para encerrar essa breve discussão, pode ser associado ao que PRECIADO (2011) aponta sobre a política da multidão queer:

não repousa sobre uma identidade natural (homem/mulher) nem sobre uma definição pelas práticas (heterossexual/homossexual), mas sobre uma multiplicidade de corpos (…) contra os regimes que os constroem como “normais” ou “anormais”: são os drag kings, as gouines garous, as mulheres de barba, os transbichas sem paus, os deficientes ciborgues… O que está em jogo é como resistir ou como desviar das formas de subjetivação sexopolíticas. (p. 16)

Notas:

¹ De testemunha de Jeová a voz do funk LGBT, MC Linn da Quebrada se diz ‘terrorista de gênero’. Portal G1. Música. Disponível em:<http://g1.globo.com/musica/noticia/2016/09/de-testemunha-de-jeova-voz-do-funk-lgbt-mc-linn-da-quebrada-se-diz-terrorista-de-genero.html> Acesso em: 13 de setembro de 2017.

² “Linn da Quebrada – Eu não quero me finalizar”. Publicado por Melissa Channel em 10 de outubro de 2016. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=-50hUUG1Ppo&gt; Acesso em: 13 de setembro de 2017.

³ Gíria LGBT que significa “mulher”. 

Referências Bibliográficas

PRECIADO, Beatriz. Multidões queer: notas para uma política dos “anormais”. Estudos Feministas, Florianópolis, v. 19, n. 1, p. 11, jan. 2011. ISSN 1806-9584. Disponível em: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/view/S0104-026X2011000100002/18390>. Acesso em: 13 set. 2017.

Reflexões sobre conceituação em Ciências Sociais

Por Pedro Vanzo

A rotulação de determinados padrões, sejam sentimentais ou comportamentais, a fim de tornar claro determinado posicionamento dos indivíduos com relação a algum assunto é rotineira na história. A ideia é, dentre muitas, separar pessoas entre contra ou a favor de determinada opinião. Assim, conceitos são criados para dar mais consistência ao que chamo aqui de ‘’caixas isoladas’’, que tendem a dividir a sociedade.

Se observarmos a história e, principalmente, a maneira como ela é contada, é possível notar que há diferenças entre o que ocorreu e o que foi relatado sobre aquilo – o que depende diretamente da perspectiva e olhar pessoal de um indivíduo. Por isso, cria-se uma linha tênue entre realidade e ponto de vista, podendo existir lacunas que deixam certas análises prejudicadas e, assim, nem sempre utilizáveis quando pretende-se compreender um determinado momento. Especificamente nas Ciências Sociais, alguns fenômenos geralmente se apresentam sob conceitos específicos, ou seja, sob uma determinada ótica. Por exemplo, ao ler sobre algum aspecto da vida de Lula, ex-presidente do Brasil, inevitavelmente esbarra-se em conceitos como ‘’esquerda’’, ‘’comunista’’, ‘’petralha’’, etc.

Pode-se observar que, além de toda a utilidade analítica que um conceito carrega em si, existem diversos perigos que eventualmente distorcem aquilo que se tem como ‘’realidade’’. José Murilo de Carvalho, cientista político brasileiro, já elaborou uma discussão sobre os cuidados que devem ser tomados ao aplicar conceitos a situações que divergem do tal conceito aplicado e, por isso, ferem diretamente tal conceito – além de distorcer gravemente o que se passa no fenômeno estudado.

Renato Perissinotto, professor de Ciências Sociais na Universidade Federal do Paraná, também evidenciou o perigo existente nos estudiosos que se utilizam, por exemplo, do método do institucionalismo de escolha racional como um meio de explicar determinado fenômeno social. Já que, ao utilizar esse método, procura-se respostas em processos decisórios dos fenômenos sociais e, por isso, acabam não levando em consideração aquilo que antecede esses momentos, que, em muitos casos, são determinantes.

Com isso, o professor defende a aplicação da Sociologia Política como método de estudo – um caminho possível e eficaz. Isso porquê o pesquisador que se utiliza dessa linha de raciocínio, tem a possibilidade de encontrar uma melhor compreensão de determinados fenômenos, justamente porque esse sujeito busca, além de qualquer processo decisório, todas as possíveis construções que levaram a tal resultado.

No que diz respeito ao momento atual do sistema político brasileiro, vive-se uma intensa polarização. As caixas isoladas separam aqueles que são ditos de ‘’direita’’ e os que são de ‘’esquerda’’ – aqueles que são contra ou a favor do atual governo, por exemplo. ‘’Conservadores’’, ‘’liberais’’, ‘’comunistas’’, ‘’coxinhas’’ e outros termos são utilizados para marcar essa cisão.

Olhando especificamente para esse exemplo, é fácil encontrar uma problemática entre o conceito e suas aplicações. A rotulação indevida e a criação de ‘’caixas isoladas’’ influi diretamente em uma partição que polariza grupos sociais, instituições, etc. O efeito dessa polarização é sentido na grande mídia, na opinião pública e nas guinadas diversas que tomaram conta da vida política do Brasil no decorrer dos últimos anos.

Passemos a olhar o processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff: criam-se rótulos a partir de conceitos erroneamente aplicados, polarizando a opinião pública e causando esse desconforto político vivido até os dias atuais. A ascensão do vice-presidente Michel Temer, o bombardeamento com relação a escândalos envolvendo parlamentares já partiram da existência dessa binarização de opiniões.

Atualmente, por conta de toda essa lógica, conceitos passaram a ser fatalmente ligados a determinadas opiniões, sem que exista antes um questionamento sobre a lógica desse encadeamento. Por exemplo, ao elogiar o Partido dos Trabalhadores (PT) publicamente, muito provavelmente recebe-se o rótulo de ‘’comunista’’, ‘’petralha’’, entre outros, ainda que o emprego de todos esses termos esteja incorreto.

É importante postular que não é possível banalizar a teoria, bem como se faz muito necessária manter-se atento a realidade prática para compreensão total daquilo que se pretende estudar. Com isso, criam-se possibilidades analíticas para aqueles que, por exemplo, desejem estudar a política no Brasil, sem que caiam em determinadas ‘’caixas isoladas’’ como seu único suporte analítico. A colocação de um indivíduo dentro de categorias conceituais não implica que se compreenda na totalidade os comportamentos observáveis.

Quando se adentra em determinadas realidades tendo o cuidado da aplicação conceitual, tem-se uma enorme possibilidade de, ao final, se compreender o que se passa em determinados fenômenos sociais e quais são seus impactos. Pode-se, ao menos, chegar a alguma compreensão desses fenômenos, sem possuir a ambição que seja o resultado final dessa pesquisa, mas sim um início promissor.

Sempre um mesmo olhar de uma mesma maneira, não acompanha com a devida rapidez as modificações dos fenômenos sociais. Em uma piscar de olhos, fenômenos se alteram, se criam e se extinguem.

 

Referências

CARVALHO, José Murilo de. Mandonismo, coronelismo, clientelismo: uma discussão conceitual. Dados, vol. 40, n. 2, p. 229 a 250, 1997.

PERISSINOTTO, Renato M. 2004. Política e Sociedade: por uma volta à Sociologia Política. Política e Sociedade, nº 5, Outubro.

A migração e seus potenciais ritos de instituição

 Por Valentina Françóia  e Fernando Lajus

O deslocamento espacial como ato de investidura simbólica (pensemos na ideia de Rito de Instituição, de Pierre Bourdieu, por exemplo), pode ser traçado até tempos muito antigos. A imigração em suas diversas formas (refúgio, a trabalho, estudantil, etc) parece ser um destes momentos de criação de sujeitos detentores de certa qualidade, ainda mais quando consideramos o tipo de distinção que operam naquelas sociedades da qual migraram. Para Bourdieu:

Os ritos de instituição, como atos de investidura simbólica, destinados a justificar o ser consagrado a ser o que é, a existir tal como existe, acabam por fazer literalmente aquele ao qual se aplicam, arrancando-o do exercício ilegal, da ficção delirante do impostor (cujo caso-limite é o louco que se julga Napoleão) ou da imposição arbitrária do usurpador. Tal sucede ao declararem publicamente que ele é mesmo quem pretende ser legitimado para ser o que pretende, qualificado para assumir a função, ficção ou impostura a qual, sendo proclamada aos olhos de todos como merecedora de ser universalmente reconhecida, torna-se uma “impostura legítima”, segundo a fórmula de Austin, isto é, desconhecida, denegada como tal por todos, a começar pelo próprio impostor.  (BOURDIEU, 2001, pp. 296-7)

Nos últimos anos tem havido, como bem divulgado pela mídia, um fluxo migratório de maior impacto. Se o deslocamento espacial foi sempre uma questão considerada na trajetória de diversos sujeitos nos mais diferentes espaços, ela parece ser agora, talvez mesmo pela direção destes fluxos, uma questão de maior urgência. Na Europa, por exemplo, se discutem novas leis migratórias, ou para onde serão destinados as multidões cada vez mais numerosas de refugiados que, pelo mar ou pela terra, entram nas fronteiras dos países do “primeiro mundo”.

Mas, tais questões postas pela migração não afetam somente os países europeus. O Brasil nos últimos anos também tem visto suas fronteiras serem atravessadas por sujeitos de diversas nacionalidades. O caso mais óbvio sendo o dos haitianos. Em 2011 o número de haitianos no país era de 815. Em 2014 esse número já somava 30.484. Para o caso haitiano, o número de solicitantes de refúgio humanitário até 2016 chega a um total de 48.371. O segundo grupo com maior número de refugiado reconhecidos no Brasil são os sírios, com um total de 2.298[1]. [2]

O que nos parece interessante no presente texto é notar que para o caso dos sujeitos em processo migratório, e em especial para aqueles que estão em refúgio, é preciso se pensar na migração enquanto processo com dois momentos, tal como demonstra Sayad (1998). Em seu estudo clássico sobre os motivos que levaram a uma grande migração argelina em direção à França, Sayad denuncia uma perspectiva que leva em conta somente os elementos de imigração para a explicação do fenômeno migratório como um todo. Por esta ótica, critica o autor, a migração é vista através de uma via de mão única. Nesta perspectiva de mão única leva-se somente em consideração os impactos – na maioria das vezes negativados – que os imigrantes causam aonde chegam. Os motivos que levaram a pessoa a se tornar, em primeiro lugar, um emigrante, são invisibilizados. Faz-se necessário, segundo o autor, remontar “o itinerário do imigrante (emigrante de lá…) e do emigrante (imigrante aqui…)”.

Em seu livro “A imigração ou os paradoxos da alteridade”, o autor está preocupado em demonstrar como para o caso da migração argelina para a França estes dois momentos deveriam ser levados em conta, caso se queira compreender os tipos de impacto que migração coloca. Através da ideia de “Rito de Instituição” podemos conceber os impactos que concernem a posição daquele que migra. Na aldeia, o sujeito se torna alguém esclarecido e cosmopolita; aquele que chegou a França, a terra da bonança. Na França, contrariamente, o migrante se torna mais um dos muitos imigrantes que se acomodam em cômodos apertados e úmidos, destinados aos trabalhos com pouco prestígio e com baixo retorno financeiro.

A consequência imediata desta disparidade entre expectativa e realidade faz com que, utilizando os termos da aldeia na qual Sayad fez seu trabalho de pesquisa, a França se torne a elghorba daqueles que para lá migram[3]. A França passa a ser o lugar do exílio, da escuridão, para onde, por conta do discurso dissimulado por aqueles que lá estão, por esta “impostura legítima” – nos termos de Bourdieu – todos aspiram a ir.

Acreditamos que é preciso considerar estes dois momentos (imigração e emigração) caso se queria disponibilizar as condições necessárias para o bem estar daqueles que, por diversos motivos, nenhum deles aprazível ou conhecido pela maioria dos brasileiros, se tornaram refugiados. Aqui talvez seja mais rico se utilizar dos discursos batidos e até certo ponto clichês, pois o que está em jogo é, antes da soberania nacional ou da segurança interna, a manutenção mesmo de qualquer qualidade humana, da possibilidade de criação de empatia ou reconhecimento. Do contrário, em tempos onde a lógica da exclusão ao outro, da ascensão da impostura fascista e do ódio ao diferente parecem imperar e se reproduzir, qualquer lugar pode se tornar a elghorba.

[1] Existe aqui uma diferença entre o refúgio humanitário destinado a haitianos e o refúgio destinado a sírios e outras nacionalidades, regido pela lei internacional de refúgio proposta na convenção de Genebra de 1951. Já o visto humanitário disponibilizado pela Polícia Federal é regido pela resolução normativa nº 97, de 2012.

[2] Dados disponibilizados pelo Comitê Nacional para os Refugiados (CONARE).

[3] Sayad. 1998. P.288. “ Elghorba: o exílio; de ghorb: o poente –  o exílio sempre vai para o poente e ele mesmo é um “poente” (trevas, escuridão, declínio, morte etc) ”

 

BOURDIEU, Pierre. Meditações pascalianas. Trad. Sergio Miceli. Rio de Janeiro. Editora Bertrand, 2001.

CONARE. Sistema de Refúgio brasileiro: desafios e perspectivas. Relatório de 2016. In: http://www.acnur.org/fileadmin/scripts/doc.php?file=fileadmin/Documentos/portugues/Estatis ticas/Sistema_de_Refugio_brasileiro_-_Refugio_em_numeros_-_05_05_2016. Acessado em 27/08/2017.

SAYAD, Abdelmalek. A imigração ou os paradoxos da alteridade. 1998. Trad. Cristina Murachco. São Paulo. EDUSP.

Curitiba e o mito da cidade modelo

                                                                                                                Por Raphaela Blotz 

O processo de urbanização, a quantidade de parques, museus, bibliotecas, as particularidades do transporte público e outras características da cidade deram a Curitiba a reputação de “Europa brasileira”, “cidade modelo” e outras expressões que enaltecem a capital paranaense. Isto posto, esse texto pretende expor, de maneira breve, uma discussão a respeito do City Marketing enquanto uma política institucional utilizada para propagar e ampliar a imagem de “cidade de primeiro mundo” construída a respeito de Curitiba.

Fernanda E. Sánchez García no seu trabalho City Marketing: a nova face da gestão no final do século, realiza uma reflexão acerca dos processos de reorganização e refuncionalização do espaço urbano de Curitiba que marcaram os anos 90. Estes processos eram orientados para uma nova inscrição da cidade no território nacional e internacional. Com um recorte específico na política institucional do city marketing, a autora aborda conceitos como “mitos modernos” e “imagem-síntese” para caracterizar a simbologia do discurso e dos meios de comunicação e informação utilizados para propagar e ampliar a imagem de cidade modelo e qualidade de vida construída a respeito de Curitiba.

Essa estratégia do discurso e dos meios de comunicação foram utilizados como cimento social, condensando a boa aparência das políticas de city marketing sobre os cidadãos dando legitimidade e apoio social às mesmas. Segundo Sánchez García : “a absorção acrítica dos novos “produtos” urbanísticos e os rápidos processos de adesão social a ideias, valores e mitos associados à cidade moderna (…) são indicadores da cristalização da imagem urbana construída.”.

Dessa forma, “a obtenção e manutenção deste padrão dominante expressa, por sua vez, a agilização dos elos entre os meios técnicos de comunicação, esfera cultural e aparelhos de poder.”. Os projetos urbanísticos implantados em Curitiba nos anos 90 promovidos pelo city marketing desempenharam a função de reorganização do espaço metropolitano para atender às demandas de qualidade de vida urbana e assim, poder competir com outras metrópoles na busca de investimentos locais e estrangeiros para a fixação de um mercado forte e organizado.

Vale lembrar que a política do city marketing é marcada pela associação entre o poder público e os interesses do poder privado. De acordo com Sánchez (1999) o city marketing constitui-se, na orientação da política urbana à criação ou ao atendimento das necessidades do consumidor, seja este empresário, turista ou o próprio cidadão. Sendo assim, a produção de imagens/mito tem um papel cada vez mais relevante na formulação de novas estratégias econômicas para a cidade.  Orientadas, principalmente, para a internacionalização desta, essas estratégias também são voltadas para a obtenção de efeitos internos, particularmente no que se refere à construção de uma ampla adesão social a um determinado modelo de gestão e administração da cidade.

Com o apoio de empresários, o projeto de modernização de Curitiba internaliza e antecipa tendências dominantes de reorganização do espaço e da sociedade já no início dos anos 90. A intervenção incisiva das redes técnicas de comunicação em bagagens culturais da população urbana indica um vínculo ativo entre cultura e economia, como demonstram o marketing e a promoção cultural de cidades e lugares. Dessa forma, poder político e poder econômico se aliam para formular novos projetos para o espaço urbano que beneficiam os interesses privados, mas são “vendidos” pela mídia como projetos realizados para o bem estar da população.

Essa configuração é chamada por Barthes (1982) de mitos modernos, estes são produtos de uma linguagem que reelabora e dá novo significado ao senso comum. Entretanto, esta reelaboração “seleciona parcelas da realidade urbana e recodifica a experiência coletiva mediante estereótipos e simplificações pragmáticas.” (Sánchez, 1997).

Em um contexto mundial essas políticas de reorganização urbana do fim do século XX surgem em meio ao dinamismo das mudanças econômicas mundiais, aos conflitos geopolíticos, as incessantes inovações tecnológicas e as mudanças nas atitudes socioculturais. Com efeito, estes fenômenos exigem dos administradores e gestores urbanos uma grande capacidade de antecipação ou de reação perante a atuação de seus “competidores” mais diretos (Sánchez, 1999).

Diante disso, surge o fenômeno do “empreendedorismo urbano” caracterizado pelo papel empresarial do poder político local, assim como a crescente parceria com o setor privado, almejando investimentos e o desenvolvimento econômico da cidade. Segundo Sánchez (1999), isto representa um notável giro na filosofia do planejamento e da gestão urbana, que implica uma profunda reestruturação administrativa com a adoção de métodos empresariais de trabalho, mais orientados para a demanda do mercado do que para a própria população.

Deste modo, esse novo modelo de gestão urbana (público-privada) tem provocado profundas e questionáveis mudanças na atuação dos governos municipais com relação às suas prioridades na alocação de recursos e compromissos e na implementação de políticas, com tendências cada vez maiores a uma mercantilização da vida urbana.

No caso de Curitiba, a figura do prefeito Jaime Lerner representa esse tipo de ideologia. No entanto, o prefeito é associado positivamente pela maioria dos cidadãos pelas transformações realizadas na cidade:

Hoje cada rua de Curitiba tem alguma marca da criatividade do Jaime e de sua capacidade de reunir as pessoas em torno de seus projetos. Em Curitiba, muitos dizem que tudo aquilo que o Jaime toca não “vira ouro”, “vira” qualidade de vida. (IstoÉ, 8.4.1992).

Em relação à fixação das imagens-síntese na opinião popular, esta é obtida pelo seu uso recorrente pela mídia e pelo discurso da figura do líder (prefeito). Com isso, a população é direcionada a determinadas formas de apropriação dos espaços e à reprodução de esperados traços culturais do “espírito do lugar”, codificando assim comportamentos específicos para cada cidade. Como afirma Sánchez (1997):

Quanto mais as sínteses discursivas cristalizam-se nos mitos modernos maior se torna o risco de que seu uso opere com classificações excludentes ou controladoras de comportamentos sociais, acirrando uma valorização desigual de segmentos da vida coletiva.

A construção da imagem de cidade modelo no caso de Curitiba se deu a partir dos anos 70 quando foi implantado o Plano Diretor da cidade que produziu mudanças profundas no tecido urbano e cujos eixos foram a determinação de um novo desenho de vias estruturais com um uso do solo específico e um modelo de transporte coletivo de ônibus expressos (uma espécie de metrô de superfície) (Sánchez, 1997).

Já nos anos 90, outro tipo de imagem-síntese passou a ser elaborado em Curitiba, utilizando novos projetos urbanísticos como a construção de parques étnicos, novos centros culturais e de lazer como o “Memorial da Cidade” ou a “Ópera de Arame”, ruas da cidadania (serviços para a população), bibliotecas populares chamadas “Faróis do Saber”, o Jardim Botânico e a Universidade do Meio Ambiente, entre outras obras emblemáticas do período.

Tais obras que marcaram a modernização de Curitiba e ao mesmo tempo classificaram-na como “Cidade de Primeiro Mundo” contribuíram para o redirecionamento das redes modernas de consumo de bens e serviços metropolitanos. A capital paranaense passou a ser escolhida como centro de experimentação de novos equipamentos e fluxos, como também centro difusor de novos valores associados aos desejados padrões contemporâneos de vida urbana.

De acordo com Sáchez (1997), “o poder de atração da cidade no plano interno do país, encontra-se claramente identificado no marketing recente que potencializa a imagem-mito criada”. Segundo a autora, essa imagem construída pela relação entre cultura, política e economia aciona a temática da “qualidade de vida” com a “superioridade de seus serviços urbanos” e seu “alto padrão de opções culturais e de lazer”. Em consequência disso, ocorrem as migrações de famílias de classes dominantes para a cidade modelo brasileira.

Milton Santos discorre sobre isso em seu texto “O meio técnico-científico e a urbanização no Brasil” (1988). Segundo ele: a agilidade com que o discurso dominante incorporou a face contemporânea dos circuitos econômico-espaciais revela, entre outras coisas, a assimilação da possibilidade de redistribuição das classes médias no território nacional.

No novo meio técnico-científico, o sistema de técnicas torna-se um suporte para um novo sistema de relações sociais e espaciais. Os fluxos espaciais passam a ser mais amplos. Na era da globalização surgem novos recortes territoriais com uma crescente liberdade das atividades para se localizarem sem as dificuldades impostas pela distancia física. A escala de medição passa a ser também o tempo.

O processo de modernização de Curitiba teve caráter excludente no sentido de visar a padronização cultural, levando-se em conta a imagem consensual e as articulações identificadas entre discurso e senso comum e, por outro lado, os contextos altamente seletivos de inovação real e de apropriação e acesso aos novos serviços e equipamentos urbanos. “ O city marketing mediante veiculação de sistemas articulados de estilos de vida e imagens, tem uma contraface que se constrói na exclusão e segregação.”

De acordo com Sánchez, “a face perversa da modernização é que enquanto se instauram e agilizam condições extremamente favoráveis para os grupos mais fortes também se instauram as condições para a alienação dos cidadãos.”

O trecho do artigo Políticas Urbanas em renovação: uma leitura crítica dos modelos emergentes, traz a definição do que seria uma cidade espetáculo traz uma reflexão importante para continuidade da discussão:

A noção de cidade-espetáculo aqui desenvolvida indica a espetacularização da experiência urbana. Verificamos que muitas vezes os cidadãos – consumidores? – têm uma atitude reverenciadora, complacente e, em última instância, passiva, em relação à cidade. O espaço é transformado em cenário onde tudo é objeto de consumo estético e contemplativo. Nesse sentido, é a cidade que está no centro da cena, a cidade tornada sujeito, que  em determinadas circunstâncias transforma os próprios cidadãos em meros figurantes, atores secundários de seu roteiro. (Sánchez, 1999, p. 126).

Assim, percebemos que o discurso de “Europa brasileira” não é ingenuo e não surge sozinho, pelo contrário, é um discurso que assiste a interesses de classes específicas, provocando segregação e exclusão.

 

 

Bibliografia:

SÁNCHEZ, F. Cidade-espetáculo: política, planejamento e city marketing. Curitiba: Palavra, 1997.

SÁNCHEZ, F. Políticas Urbanas em renovação: uma leitura crítica dos modelos emergentes. Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais. Rio de Janeiro, n 1, maio de 1999, p. 115-132.

SANTOS, M. O meio técnico-científico e a urbanização no Brasil. In: Espaço e Debates. São Paulo: NERU, n 25, 1988, p. 58-62.

Chacal, um poeta de sua época

                                                                                                                               Por Yasmin Victoria

                                 04margi

Brasil anos setenta, entre gritos de gol pelo tricampeonato do México e uivos de dor de presos políticos sob tortura, a vida é um terror. Quem tem o mínimo de senso de justiça social, vai à luta com as armas que tiver à mão. […] Charles um dia me passa um livrinho. Oswald de Andrade, o antropófago-mor. Fiquei três dias boquiaberto. Enfim, o poema enxuto, o poema engraçado, o cinepoema. E os manifestos! Só a antropofagia nos une! O carnaval é acontecimento religioso da raça! Alegria é a prova dos nove no matriarcado de Pindorama! Queremos a revolução caraíba! […] Presidente da UBES, pula num poste, brada meia dúzia de palavras de ordem, incendeia a galera e vaza! Só a luta armada derruba a ditadura! […] Todo poeta é um traficante de armas! (Chacal, 2015, p 352-353).

No mês de dezembro de 2016 o poeta marginal carioca Ricardo Chacal (1951) visitou Curitiba e eu tive a oportunidade de conhece-lo e ter conversas e registros sobre literatura e passado. Esse encontro deixou muito clara a relação entre o movimento de poesia marginal1 e sua relação com os acontecimentos históricos, em especial a ditadura.

Nos anos setenta, a poesia rompe o compromisso com a realidade – por ser uma realidade repressiva – e inicia uma realidade marginal, pós-moderna sem intelectualismos. Após a promulgação do AI-5 em 1968, a poesia desenvolvida refletia o fim do sonho: poemas espontâneos, aparência mal-acabada, irônicos e coloquiais, zombando a cultura e a literatura formal. Esses poetas tinham uma cara: eram em sua maioria jovens, classe média, escrevendo sobre a banalidade cotidiana, sem grandes paixões ou ídolos, mas contra o regime; escolhem a marginalidade e são acolhidos por ela. Sem acesso a uma editora tanto pelo custo quanto pela censura, seu maior propulsor foi o mimeografo2. Apesar desse rosto mais ou menos delineado, cada uma das personalidades marginais tem uma especificidade.

É proibido pisar na grama3

O jeito é deitar e rolar

(Chacal, 2015, p.229)

Chacal, por sua vez, não é e nem foi nenhum militante ou intelectual. Foi preso pelo regime em 1972, mas não torturado, e foi liberado sem nem um dia completo. Foi morar em Londres logo em seguida, financiado por seus pais, o que deu o impulso para o início da sua tão característica poesia falada. Mas isso foi um ano depois, enquanto já divulgava seu primeiro livro, Muito Prazer, Ricardo, em mimeografo, impulsionado pela leitura do manifesto de Oswald, com a tiragem de cem exemplares. “Precário como a vida da gente”, como diz. A partir disso, fez o que faz um poeta marginal com seus livros de mimeógrafos: enfia na mochila e sai distribuindo, na faculdade, na rua, no bar, e principalmente, no píer, mais precisamente o “Utopíer”. O píer era a praia da contracultura no Rio, com frequentadores “cabeludos e drogados”, “sentados nas dunas do barato”. E foi lá que Chacal fez a coisa andar; o livro caiu nas mãos de Waly Salomão, outro poeta marginal que declamava seus versos, que mostrou pra Torquatto Neto, jornalista que mapeava o movimento underground, que o convidou para participar da Navilouca, a revista que reuniu todos esses poetas.

Cantarolando Purple Haze, do Hendrix […] o Brasil era o fim do mundo. A delação era premiada. Todos eram suspeitos. Paranoia máxima. A repressão varrendo as ruas. Agora em cima dos cabeludos que fumavam demais, que curtiam demais. […] Tudo purple. O ácido bateu tudo de novo. Tudo purple. (Chacal, 2015, p.359)

Já em Londres, Chacal teve contato com a contracultura: se a música já exercia força em seu trabalho, ela virou parte essencial para descrever sua poesia. Porém, seu momento mais marcante foi assistir Allen Ginsberg, poeta da geração beat americana, falar seu poema Uivo. As atitudes, as roupas, a risada, o modo de pronunciar as palavras: tudo isso se contrastava com as referências de poesia recitada. Um novo paradigma de poesia, poesia falada; não é declamada, não é parnasiana, não é formal, mas não é totalmente coloquial. É uma performance; mas não é teatro. Tem corpo, figurino, postura, música, foge da introversão da palavra sem vida. É poesia musicalizada, falada, performática, é a percepção de uma nova possibilidade. Chacal maravilhado volta ao Brasil, com o novo livro, America4, em mente. No Brasil, as coisas tinham andado. A geração do mimeografo se mostra uma grande resistência coletiva, que se traduz na forma de divulgação dos poemas, trocados, compartilhados, assim como o cotidiano dos poetas com o leitor/ouvinte. Os poetas como andarilhos viajantes espalhavam a cultura marginal pelo país, e Chacal fez parte disso quando adentrou a Nuvem Cigana, um coletivo desses artistas que unificou e deu consistência ao movimento por meio da produção independente de eventos performáticos de poesia chamados Artimanhas, onde Chacal pela primeira vez, em 1976, falou um poema.

escurinho da livraria só a rapaziada. A batucada tomava minha cabeça, já tomada pelo Alert Limão, poderosa mistura inflamável. A gargalhada de Ginsberg se juntava ao coquetel. Falei: é agora. Meio possuído, sem nada programado, invadi.

Veio uns omi di saia preta

Cheiu di caixinha e pó branco

Qui eles disserum qui si chamava açucri

Aí eles falarum e nos fechamu a cara

Depois eles arrepitirum e nós fechamu o corpo

Aí eles insistiram e nós comemu eles5. (Chacal, 2015, p.364)

Mesmo depois do AI-5, os anos mais ferrenhos de censura na ditadura, era possível encontrar uma brecha ou outra. Os censores da ditadura certamente não eram tão espertos quanto os artistas que queriam divulgar seu trabalho, e ter uma voz dentro da sociedade, fazendo críticas nas entrelinhas. Quem tinha mais dificuldade eram os artistas mais conhecidos; os censores já prestavam mais atenção, sabiam que poderiam ter mais impacto na população, e como prevenção podiam exilar o artista. Mas como em toda cena artística, existe uma cultura underground – que parecia se reunir, literalmente, abaixo do chão. Era o caso da poesia, no Rio e no resto do Brasil. Poesia no Brasil em senso comum ainda tinha ar parnasiano, declamações, terno e gravata, voz empostada, quase uma missa. Que a poesia podia ser subversiva a ditadura não chegou compreender, sendo a poesia marginal o primeiro movimento brasileiro a aderir cultura pop e cultura de massa a um meio artístico acostumado com erudição. Isso favoreceu o movimento da Nuvem Cigana e todos os poetas marginais, até porque eles não falavam diretamente de política – havia uma crítica, sim, mas essa crítica não era nem um pouco obvia, vinha no jeito de escrever no jeito de se portar, em se colocar marginal.

Reclame6

Se o mundo não vai bem ao seus olhos

Use lentes……………………………………..

Ou transforme o mundo.

Ótica olho vivo

Agradece a preferência

(Chacal, 2015, p. 249)

No ápice do movimento, é criado o Circo Voador, já no fim da ditadura, mas sem escapar de ser reprimido por ela.

Talento e formosura precisando de um espaço para decolar […] O Circo Voador abriu sua lona em 15 de janeiro de 1982. […] Romances nasciam e morriam como em um passo de mágica. No circo, o sonho tinha acordado. Era possível trabalhar e ter prazer ao mesmo tempo. A utopia era possível. A utopia era viável, viável, viável… […] Eles chegaram e colocaram o circo no chão. Era o dia 31 de março de 1982, dezoito anos do golpe militar. E nós, ali, incapazes e imponentes para conter a fúria dos homens da Lei e da Ordem. O rapa baixou e, a marretada, colocou o circo no chão. Eu percebi ali que a indústria cultural tinha tomado conta. E o artista, […] passa a ser um provedor de conteúdos para a atrofia do cérebro. A Utopia estava dominada. (Chacal, 2015, p. 368-370)

Chacal passa o fim dos anos oitenta parado. A poesia marginal já não faz mais sentido, agora que os livros que foram mimeografados e os novos livros são publicados e republicados por editoras sem grandes problemas com censura, distribuídos de maneira comercial, o movimento perde forças. Seu sentido enquanto produção literária está estritamente ligada ao seu contexto histórico ditatorial. O Brasil passa pela abertura política, uma confusão social. Diretas já são um fracasso, Tancredo morre, Sarney assume. Nesse marasmo, de não saber o dia de amanhã, de uma juventude crescendo em uma incongruência política, nos anos noventa Chacal se junta com Guilherme Zarvos e criam o CEP 20.000: Centro de experimentação poética. Lugar para quem tem o que falar, mas não tem onde falar. O primeiro palco de muitos artistas jovens no Rio. O CEP 20.000 já existe a a mais de 25 anos, abrindo espaço para as novas gerações, para sim, falar poesia. A poesia não reconhecida pela academia, pois visualiza como um bando de jovens sem referencial literário teórico, que fala um monte de besteira com português errado. Que diz que poesia não se fala, poesia se escreve. Aqui, a poesia não é só algo para se ler no papel, mas também para ver e ouvir, para ser presenciada através de um corpo presente.

O CEP é o lugar da experimentação numa cultura que cada vez mais se guia pelo manual da boa conduta do mercado. No CEP não. Ali se delira. […] Se isso não é poesia, foda-se a poesia! O que importa é que isso é. Eu sou nós somos.

(Chacal, 2015, p.377)

A poesia e a palavra foram dessacralizadas novamente após o modernismo. De acordo com Chacal o movimento marginal queria e conseguiu estabelecer diálogo com a obra de outros artistas, principalmente com a música. Ele, que diz que aprendeu poesia ouvindo Bob Dylan, acredita que estar no Rio foi importante para desenvolver essa poesia que precisava do corpo, pois há menos vergonha, os corpos estão mais livres, existe o carnaval, o samba, a praia. Tudo em conflito e harmonia com a parte urbana. Chacal é tão singular porque percebeu então a diferença entre escrever um poema para ser lido ou escrever um poema para ser falado; o modernismo, mesmo tendo ligação com a oralidade (afinal, “escrever como somos, como falamos”, “a contribuição milionária de todos os erros”) não escreveu os poemas para serem falados, e sim lidos. O poema falado precisa ter ritmo, musicalidade.

Sua visão de Brasil pode até ter traços, de antropofagia, da semana moderna de 1922, mas ele usa dela para ler o presente. Vem de uma poesia que está preocupada em retratar um dia a dia, uma vivencia cotidiana, algo que a ditadura não tinha interesse, pois não existia uma tentativa de tomada de poder, e sim um desinteresse pelas relações de poder políticas, uma desconfiança dos sistemas de poder, tendo em mente a negatividade do regime ditatorial. Não se trata de uma alienação, e essa é a grande questão de toda geração do mimeografo. Se trata de uma exclusão da queda de braço pelo poder, por um certo esgotamento do marxismo como modelo explicativo do mundo, onde nem o projeto da direita militar nem o projeto da esquerda marxista eram satisfatórios; os poetas marginais viviam em sua maioria uma espécie de anarquismo, ou minimamente, uma percepção de que podem ser dadas diferentes interpretações de uma realidade múltipla. Não há uma negação ou desconhecimento da realidade, mas uma escolha de se assumir marginal (que acaba se diluindo no tempo quando há a possibilidade de publicar por uma editora e se consagrar poeta, artista).

Como era bom7

O tempo em que marx explicava o mundo

Tudo era luta de classes

Como era simples

O tempo em que freud explicava

Tudo era clarinho limpinho explicadinho

Tudo era muito mais asséptico

Do que era quando eu nasci

Hoje rodado sambado pirado

Descobri que é preciso

Aprender a nascer todo dia

(Chacal, 2015, p.82)

Bibliografia

Relatos obtidos presencialmente.

CHACAL, Ricardo. “Tudo (e mais um pouco) – poesia reunida (1971-2016) ”. São Paulo: Editora 34, 2016.

ANDRADE, Oswald de. O manifesto antropófago. In: TELES, Gilberto Mendonça. Vanguarda europeia e modernismo brasileiro: apresentação e crítica dos principais manifestos vanguardistas. 3ª ed. Petrópolis: Vozes; Brasília: INL, 1976.

Assaltaram a Gramática. Direção por Ana Maria Magalhães. Brasil, 1984. Encontrado em https://www.youtube.com/watch?v=AbFNEnxzGEY

1 O termo marginal não era um termo que os poetas se designavam, mas um termo cunhado pela academia para denominar o movimento e todo seu universo e modo de se comunicar.

2 O mimeografo é uma máquina usada para xerocar apostilas, provas, documentos e panfletos, que facilitava uma brecha no sistema editorial e de censura pela possibilidade de impressão de panfletos de movimentos e encontros que pudessem ser considerados subversivos. Assim foram impressos os primeiros livros do movimento marginal.

3 Originalmente em Boca Roxa (1979)

4 Data de 1975.

5 Originalmente em Muito Prazer, Ricardo (1971)

6 Originalmente em Olhos vermelhos (1979)

7 Originalmente em Belvedere (2007)

POLÍTICAS PÚBLICAS E O COMBATE AO RACISMO INSTITUCIONAL

 Priscila Januario¹

O racismo institucional, ou viés inconsciente, opera através de valores legitimados pela sociedade, contribuindo para a naturalização e reprodução da hierarquia racial e hegemonia branca, sendo praticado em instituições e organizações tais como escolas, universidades e ambientes de trabalho. Assim, essa forma de discriminação indireta se naturaliza no nível organizacional, dando a possibilidade até mesmo de criação de políticas públicas que ajudem a perpetuar a desigualdade. Logo, essa forma de discriminação diz respeito não apenas a preconceitos individuais, mas principalmente ao funcionamento das próprias instituições e do tecido social como um todo, tendo como característica fundamental a impessoalidade. Nesse sentido, o estudo da institucionalização da discriminação racial abre a possibilidade para novas propostas de ação pública que objetivem principalmente acabar com o preconceito e integrar os negros à sociedade a nível igualitário. A figura a seguir mostra como, no Brasil, o preconceito institucionalizado opera em relação à distribuição de renda, onde é possível perceber a desigualdade enquanto instância burocrática, fazendo jus à hierarquização social não somente de raça, como também de gênero.

fsdf

Fonte: IPEA, 2011.

Desse modo, tendo em vista a existência e perpetuação desse tipo de racismo, o campo das políticas públicas denominado de ações afirmativas visa tanto reparar como prevenir a exclusão de determinados grupos a espaços institucionais, tendo como um de seus objetivos a garantia de igualdade de oportunidades e o combate aos preconceitos, desnaturalizando a hegemonia de um grupo racial sobre outro. No caso brasileiro, as formulações de estratégias legais no sentido de combate a esse tipo de racismo, apesar de limitadas, têm avançado de forma significativa. Por exemplo, no ensino básico e médio, foram feitas leis que visam valorizar a história e a cultura afro-brasileira nas escolas, dando fim à hegemonia presente no ensino da cultura européia. Já no Ensino Superior, as cotas raciais e sociais para ingresso nas universidades públicas tornaram-se obrigatórias em todo país, apesar dos discursos negativos e de não aceitação por parte da sociedade branca e de classe média a alta. Abaixo, o infográfico esquematiza o funcionamento de políticas de proteção social que visam combater a exclusão de minorias.

 

xvxv

Fonte: ONU Mulheres, 2013.

O problema do racismo institucional atravessa a problemática individual, passando a fazer parte de grandes organizações sociais e necessitando ações que dizem respeito a aspectos abrangentes da sociedade. Dessa forma, as políticas públicas feitas com o intuito de acabar com essa forma de preconceito devem atuar tanto no sentido de incluir os negros em serviços como educação e trabalho, quanto no sentido de controlar e ordenar a sociedade para que atitudes indiretas de exclusão, conseqüentes de preconceito racial, sejam devidamente vigiadas e punidas. No Brasil, desde a democratização iniciada na década de 1980, e principalmente com a ajuda do Movimento Negro, as esferas governamentais têm implantado diversas ações objetivando acabar com o racismo indireto e, por conseqüência, promover igualdade de raça, cor e etnia entre os indivíduos.

Assim, percebe-se a importância de ministérios e órgãos setoriais (federal, estaduais e municipais) na formulação, aplicação e monitoramento de políticas que possuam como intuito a inclusão da população negra em serviços de saúde, educação, trabalho, entre outros. O combate ao racismo precisa ser efetivado em todos os setores da vida pública.


¹Bolsista do PET Ciências Sociais.

 

LEITURAS COMPLEMENTARES

http://www.geledes.org.br/voce-e-racista-so-nao-sabe-disso-ainda/

https://libertarianismoedarwinismo.wordpress.com/2015/05/14/vies-inconsciente-de-discriminacao-racial-acao-afirmativa-e-respeito-ao-individuo/

http://www.marcusreis.com.br/2014/05/o-racismo-inconsciente.html

 

REFERÊNCIAS

SECCHI, L. Políticas Públicas – conceitos, esquemas de análise, casos práticos. São Paulo: Cengage Learning, 2010.

THEODORO, M. (Org.). As políticas públicas e a desigualdade racial no Brasil 120 anos após a abolição. Rio de Janeiro: IPEA, 2008.

WERNECK, Jurema et al. Racismo institucional: uma abordagem conceitual. ONU Mulheres, 2013. Disponível em http://www.onumulheres.org.br/wp-content/uploads/2016/04/FINAL-WEB-Racismo-Institucional-uma-abordagem-conceitual.pdf. Acessado em 10 de maio de 2017.

 

Propagandas “empoderadoras”: iniciativa ou demanda social?

As redes sociais são atualmente uma poderosa ferramenta de modificação e exposição do que é a sociedade brasileira. O que parece é que tudo hoje em dia gira em torno das redes sociais, tudo que é aceito ou rejeitado, certo ou errado, coerente ou incoerente passa pelo julgamento dos milhões de internautas brasileiros. Paralelamente a isso, diversas minorias (mulheres, negros e negras e homossexuais) se organizam e se manifestam via redes sociais, criando grupos e páginas de grande alcance, fazendo com que se comuniquem, troquem experiências, relatos e vivências cotidianas. Toda essa relevância que as redes sociais estão tomando em nossa sociedade, e a força e união que esses grupos minoritários estão adquirindo podem ser ilustradas no caso da publicidade, que está passando por uma grande revolução nos últimos três anos.

As campanhas publicitárias são um reflexo do nosso imaginário social, já que para serem aceitas e tornarem um produto desejado, é necessário que as propagandas fiquem dentro dos padrões vigentes. O que acontece atualmente é que as mulheres, negros e negras, homossexuais e qualquer outro grupo que seja uma minoria em relação a direitos civis mas uma maioria da população de consumidores não está mais aceitando qualquer tipo de campanha publicitária que seja ofensiva ou que faça apologia a qualquer tipo de violência e preconceito.

Uma pesquisa realizada pela SheKnows Media perguntou a cerca de 4 mil pessoas quais são suas opiniões sobre as “propagandas empoderadoras”. Os resultados mostram que 97% das mulheres entrevistadas acreditam que as campanhas publicitárias causam impactos sobre como a sociedade as vê. Além disso, 53% das mulheres que responderam o questionário já compraram produtos porque gostaram da forma como a figura feminina foi exposta na propaganda do produto.

Um dos exemplos reais da revolução publicitária que vem acontecendo pode ser observada no caso da marca de cervejas Skol. No período pré-Carnaval de 2015 a marca publicou em diversos outdoors e pontos de ônibus frases como “Esqueci o ‘não’ em casa” e “Topo antes de saber a pergunta”. Essas frases geraram muitas manifestações online por se tratarem de afirmações que podem ser associadas à apologia ao estupro. Por conta disso, a marca resolveu retirar a campanha, e se desculpou publicamente pela interpretação dúbia que a campanha causou.

download

Porém, em 2017, a Skol está trazendo campanhas que tem como bandeira a quebra de estereótipos. Com o slogan “Redondo é sair do seu quadrado” a marca trouxe no verão um filme que estimula todos os tipos de pessoas a não terem vergonha de sair de casa por qualquer característica física, mas sim tendo orgulho de ser quem é.

Além disso, ainda mais recentemente, em abril deste ano, a Skol lança a coleção limitada de latas intituladas “Skolors”, que é inspirada nos diversos tons de pele do brasileiro. Essa coleção trouxe consigo um filme repleto de pessoas de todas as cores: albinos, ruivos, pessoas com vitiligo e negros.

Esse é só um dos muitos exemplos de marcas que vêm ao longo dos anos modificando as bandeiras de suas propagandas. É necessário atentar-se para o fato de que não são as marcas que estão tomando a iniciativa para diminuir a quantidade de machismo, racismo, homofobia e qualquer outro tipo de preconceito em nossa sociedade. As marcas realizam suas campanhas pois querem vender um produto para um tipo de público, e a forma como elas alcançam esse público hoje em dia é evitando ao máximo materiais com conteúdos sexistas, em um caso em que o público alvo seja feminino, por exemplo. Ou seja, essas campanhas são apenas um reflexo na modificação do nosso imaginário social, as pessoas estão cada vez mais conscientes das necessidades de mudanças em nossa sociedade, e a publicidade é só um exemplo de setor que está sendo afetado por essa nova onda, a tendência é que esses conceitos fiquem cada vez mais nítidos, diminuindo assim a quantidade de machismo e preconceito ao nosso redor, ou pelo menos incentivando as pessoas a terem força e voz para combater esse tipo de atitude.

Referências Bibliográficas

http://www.sheknowsmedia.com/attachments/3224/SheKnows-Media-Femvertising-Infographic-2016.pdf

http://thinkolga.com/2015/02/10/o-despertar-da-publicidade-para-mulheres/

http://www.forebrain.com.br/noticias/femvertising-o-empoderamento-das-mulheres-na-publicidade/

http://www.b9.com.br/59594/advertising/voce-sabe-o-que-e-femvertising/

https://www.cartacapital.com.br/blogs/feminismo-pra-que/a-representacao-da-mulher-na-midia-e-em-produtos-7011.html

http://www.administradores.com.br/mobile/noticias/marketing/como-o-ciberfeminismo-esta-moldando-uma-nova-publicidade/105731/

http://adnews.com.br/publicidade/o-ano-do-empoderamento-feminino-na-propaganda.html

Ana Heloise Lopes Diniz