Chacal, um poeta de sua época

                                                                                                                               Por Yasmin Victoria

                                 04margi

Brasil anos setenta, entre gritos de gol pelo tricampeonato do México e uivos de dor de presos políticos sob tortura, a vida é um terror. Quem tem o mínimo de senso de justiça social, vai à luta com as armas que tiver à mão. […] Charles um dia me passa um livrinho. Oswald de Andrade, o antropófago-mor. Fiquei três dias boquiaberto. Enfim, o poema enxuto, o poema engraçado, o cinepoema. E os manifestos! Só a antropofagia nos une! O carnaval é acontecimento religioso da raça! Alegria é a prova dos nove no matriarcado de Pindorama! Queremos a revolução caraíba! […] Presidente da UBES, pula num poste, brada meia dúzia de palavras de ordem, incendeia a galera e vaza! Só a luta armada derruba a ditadura! […] Todo poeta é um traficante de armas! (Chacal, 2015, p 352-353).

No mês de dezembro de 2016 o poeta marginal carioca Ricardo Chacal (1951) visitou Curitiba e eu tive a oportunidade de conhece-lo e ter conversas e registros sobre literatura e passado. Esse encontro deixou muito clara a relação entre o movimento de poesia marginal1 e sua relação com os acontecimentos históricos, em especial a ditadura.

Nos anos setenta, a poesia rompe o compromisso com a realidade – por ser uma realidade repressiva – e inicia uma realidade marginal, pós-moderna sem intelectualismos. Após a promulgação do AI-5 em 1968, a poesia desenvolvida refletia o fim do sonho: poemas espontâneos, aparência mal-acabada, irônicos e coloquiais, zombando a cultura e a literatura formal. Esses poetas tinham uma cara: eram em sua maioria jovens, classe média, escrevendo sobre a banalidade cotidiana, sem grandes paixões ou ídolos, mas contra o regime; escolhem a marginalidade e são acolhidos por ela. Sem acesso a uma editora tanto pelo custo quanto pela censura, seu maior propulsor foi o mimeografo2. Apesar desse rosto mais ou menos delineado, cada uma das personalidades marginais tem uma especificidade.

É proibido pisar na grama3

O jeito é deitar e rolar

(Chacal, 2015, p.229)

Chacal, por sua vez, não é e nem foi nenhum militante ou intelectual. Foi preso pelo regime em 1972, mas não torturado, e foi liberado sem nem um dia completo. Foi morar em Londres logo em seguida, financiado por seus pais, o que deu o impulso para o início da sua tão característica poesia falada. Mas isso foi um ano depois, enquanto já divulgava seu primeiro livro, Muito Prazer, Ricardo, em mimeografo, impulsionado pela leitura do manifesto de Oswald, com a tiragem de cem exemplares. “Precário como a vida da gente”, como diz. A partir disso, fez o que faz um poeta marginal com seus livros de mimeógrafos: enfia na mochila e sai distribuindo, na faculdade, na rua, no bar, e principalmente, no píer, mais precisamente o “Utopíer”. O píer era a praia da contracultura no Rio, com frequentadores “cabeludos e drogados”, “sentados nas dunas do barato”. E foi lá que Chacal fez a coisa andar; o livro caiu nas mãos de Waly Salomão, outro poeta marginal que declamava seus versos, que mostrou pra Torquatto Neto, jornalista que mapeava o movimento underground, que o convidou para participar da Navilouca, a revista que reuniu todos esses poetas.

Cantarolando Purple Haze, do Hendrix […] o Brasil era o fim do mundo. A delação era premiada. Todos eram suspeitos. Paranoia máxima. A repressão varrendo as ruas. Agora em cima dos cabeludos que fumavam demais, que curtiam demais. […] Tudo purple. O ácido bateu tudo de novo. Tudo purple. (Chacal, 2015, p.359)

Já em Londres, Chacal teve contato com a contracultura: se a música já exercia força em seu trabalho, ela virou parte essencial para descrever sua poesia. Porém, seu momento mais marcante foi assistir Allen Ginsberg, poeta da geração beat americana, falar seu poema Uivo. As atitudes, as roupas, a risada, o modo de pronunciar as palavras: tudo isso se contrastava com as referências de poesia recitada. Um novo paradigma de poesia, poesia falada; não é declamada, não é parnasiana, não é formal, mas não é totalmente coloquial. É uma performance; mas não é teatro. Tem corpo, figurino, postura, música, foge da introversão da palavra sem vida. É poesia musicalizada, falada, performática, é a percepção de uma nova possibilidade. Chacal maravilhado volta ao Brasil, com o novo livro, America4, em mente. No Brasil, as coisas tinham andado. A geração do mimeografo se mostra uma grande resistência coletiva, que se traduz na forma de divulgação dos poemas, trocados, compartilhados, assim como o cotidiano dos poetas com o leitor/ouvinte. Os poetas como andarilhos viajantes espalhavam a cultura marginal pelo país, e Chacal fez parte disso quando adentrou a Nuvem Cigana, um coletivo desses artistas que unificou e deu consistência ao movimento por meio da produção independente de eventos performáticos de poesia chamados Artimanhas, onde Chacal pela primeira vez, em 1976, falou um poema.

escurinho da livraria só a rapaziada. A batucada tomava minha cabeça, já tomada pelo Alert Limão, poderosa mistura inflamável. A gargalhada de Ginsberg se juntava ao coquetel. Falei: é agora. Meio possuído, sem nada programado, invadi.

Veio uns omi di saia preta

Cheiu di caixinha e pó branco

Qui eles disserum qui si chamava açucri

Aí eles falarum e nos fechamu a cara

Depois eles arrepitirum e nós fechamu o corpo

Aí eles insistiram e nós comemu eles5. (Chacal, 2015, p.364)

Mesmo depois do AI-5, os anos mais ferrenhos de censura na ditadura, era possível encontrar uma brecha ou outra. Os censores da ditadura certamente não eram tão espertos quanto os artistas que queriam divulgar seu trabalho, e ter uma voz dentro da sociedade, fazendo críticas nas entrelinhas. Quem tinha mais dificuldade eram os artistas mais conhecidos; os censores já prestavam mais atenção, sabiam que poderiam ter mais impacto na população, e como prevenção podiam exilar o artista. Mas como em toda cena artística, existe uma cultura underground – que parecia se reunir, literalmente, abaixo do chão. Era o caso da poesia, no Rio e no resto do Brasil. Poesia no Brasil em senso comum ainda tinha ar parnasiano, declamações, terno e gravata, voz empostada, quase uma missa. Que a poesia podia ser subversiva a ditadura não chegou compreender, sendo a poesia marginal o primeiro movimento brasileiro a aderir cultura pop e cultura de massa a um meio artístico acostumado com erudição. Isso favoreceu o movimento da Nuvem Cigana e todos os poetas marginais, até porque eles não falavam diretamente de política – havia uma crítica, sim, mas essa crítica não era nem um pouco obvia, vinha no jeito de escrever no jeito de se portar, em se colocar marginal.

Reclame6

Se o mundo não vai bem ao seus olhos

Use lentes……………………………………..

Ou transforme o mundo.

Ótica olho vivo

Agradece a preferência

(Chacal, 2015, p. 249)

No ápice do movimento, é criado o Circo Voador, já no fim da ditadura, mas sem escapar de ser reprimido por ela.

Talento e formosura precisando de um espaço para decolar […] O Circo Voador abriu sua lona em 15 de janeiro de 1982. […] Romances nasciam e morriam como em um passo de mágica. No circo, o sonho tinha acordado. Era possível trabalhar e ter prazer ao mesmo tempo. A utopia era possível. A utopia era viável, viável, viável… […] Eles chegaram e colocaram o circo no chão. Era o dia 31 de março de 1982, dezoito anos do golpe militar. E nós, ali, incapazes e imponentes para conter a fúria dos homens da Lei e da Ordem. O rapa baixou e, a marretada, colocou o circo no chão. Eu percebi ali que a indústria cultural tinha tomado conta. E o artista, […] passa a ser um provedor de conteúdos para a atrofia do cérebro. A Utopia estava dominada. (Chacal, 2015, p. 368-370)

Chacal passa o fim dos anos oitenta parado. A poesia marginal já não faz mais sentido, agora que os livros que foram mimeografados e os novos livros são publicados e republicados por editoras sem grandes problemas com censura, distribuídos de maneira comercial, o movimento perde forças. Seu sentido enquanto produção literária está estritamente ligada ao seu contexto histórico ditatorial. O Brasil passa pela abertura política, uma confusão social. Diretas já são um fracasso, Tancredo morre, Sarney assume. Nesse marasmo, de não saber o dia de amanhã, de uma juventude crescendo em uma incongruência política, nos anos noventa Chacal se junta com Guilherme Zarvos e criam o CEP 20.000: Centro de experimentação poética. Lugar para quem tem o que falar, mas não tem onde falar. O primeiro palco de muitos artistas jovens no Rio. O CEP 20.000 já existe a a mais de 25 anos, abrindo espaço para as novas gerações, para sim, falar poesia. A poesia não reconhecida pela academia, pois visualiza como um bando de jovens sem referencial literário teórico, que fala um monte de besteira com português errado. Que diz que poesia não se fala, poesia se escreve. Aqui, a poesia não é só algo para se ler no papel, mas também para ver e ouvir, para ser presenciada através de um corpo presente.

O CEP é o lugar da experimentação numa cultura que cada vez mais se guia pelo manual da boa conduta do mercado. No CEP não. Ali se delira. […] Se isso não é poesia, foda-se a poesia! O que importa é que isso é. Eu sou nós somos.

(Chacal, 2015, p.377)

A poesia e a palavra foram dessacralizadas novamente após o modernismo. De acordo com Chacal o movimento marginal queria e conseguiu estabelecer diálogo com a obra de outros artistas, principalmente com a música. Ele, que diz que aprendeu poesia ouvindo Bob Dylan, acredita que estar no Rio foi importante para desenvolver essa poesia que precisava do corpo, pois há menos vergonha, os corpos estão mais livres, existe o carnaval, o samba, a praia. Tudo em conflito e harmonia com a parte urbana. Chacal é tão singular porque percebeu então a diferença entre escrever um poema para ser lido ou escrever um poema para ser falado; o modernismo, mesmo tendo ligação com a oralidade (afinal, “escrever como somos, como falamos”, “a contribuição milionária de todos os erros”) não escreveu os poemas para serem falados, e sim lidos. O poema falado precisa ter ritmo, musicalidade.

Sua visão de Brasil pode até ter traços, de antropofagia, da semana moderna de 1922, mas ele usa dela para ler o presente. Vem de uma poesia que está preocupada em retratar um dia a dia, uma vivencia cotidiana, algo que a ditadura não tinha interesse, pois não existia uma tentativa de tomada de poder, e sim um desinteresse pelas relações de poder políticas, uma desconfiança dos sistemas de poder, tendo em mente a negatividade do regime ditatorial. Não se trata de uma alienação, e essa é a grande questão de toda geração do mimeografo. Se trata de uma exclusão da queda de braço pelo poder, por um certo esgotamento do marxismo como modelo explicativo do mundo, onde nem o projeto da direita militar nem o projeto da esquerda marxista eram satisfatórios; os poetas marginais viviam em sua maioria uma espécie de anarquismo, ou minimamente, uma percepção de que podem ser dadas diferentes interpretações de uma realidade múltipla. Não há uma negação ou desconhecimento da realidade, mas uma escolha de se assumir marginal (que acaba se diluindo no tempo quando há a possibilidade de publicar por uma editora e se consagrar poeta, artista).

Como era bom7

O tempo em que marx explicava o mundo

Tudo era luta de classes

Como era simples

O tempo em que freud explicava

Tudo era clarinho limpinho explicadinho

Tudo era muito mais asséptico

Do que era quando eu nasci

Hoje rodado sambado pirado

Descobri que é preciso

Aprender a nascer todo dia

(Chacal, 2015, p.82)

Bibliografia

Relatos obtidos presencialmente.

CHACAL, Ricardo. “Tudo (e mais um pouco) – poesia reunida (1971-2016) ”. São Paulo: Editora 34, 2016.

ANDRADE, Oswald de. O manifesto antropófago. In: TELES, Gilberto Mendonça. Vanguarda europeia e modernismo brasileiro: apresentação e crítica dos principais manifestos vanguardistas. 3ª ed. Petrópolis: Vozes; Brasília: INL, 1976.

Assaltaram a Gramática. Direção por Ana Maria Magalhães. Brasil, 1984. Encontrado em https://www.youtube.com/watch?v=AbFNEnxzGEY

1 O termo marginal não era um termo que os poetas se designavam, mas um termo cunhado pela academia para denominar o movimento e todo seu universo e modo de se comunicar.

2 O mimeografo é uma máquina usada para xerocar apostilas, provas, documentos e panfletos, que facilitava uma brecha no sistema editorial e de censura pela possibilidade de impressão de panfletos de movimentos e encontros que pudessem ser considerados subversivos. Assim foram impressos os primeiros livros do movimento marginal.

3 Originalmente em Boca Roxa (1979)

4 Data de 1975.

5 Originalmente em Muito Prazer, Ricardo (1971)

6 Originalmente em Olhos vermelhos (1979)

7 Originalmente em Belvedere (2007)

POLÍTICAS PÚBLICAS E O COMBATE AO RACISMO INSTITUCIONAL

 Priscila Januario¹

O racismo institucional, ou viés inconsciente, opera através de valores legitimados pela sociedade, contribuindo para a naturalização e reprodução da hierarquia racial e hegemonia branca, sendo praticado em instituições e organizações tais como escolas, universidades e ambientes de trabalho. Assim, essa forma de discriminação indireta se naturaliza no nível organizacional, dando a possibilidade até mesmo de criação de políticas públicas que ajudem a perpetuar a desigualdade. Logo, essa forma de discriminação diz respeito não apenas a preconceitos individuais, mas principalmente ao funcionamento das próprias instituições e do tecido social como um todo, tendo como característica fundamental a impessoalidade. Nesse sentido, o estudo da institucionalização da discriminação racial abre a possibilidade para novas propostas de ação pública que objetivem principalmente acabar com o preconceito e integrar os negros à sociedade a nível igualitário. A figura a seguir mostra como, no Brasil, o preconceito institucionalizado opera em relação à distribuição de renda, onde é possível perceber a desigualdade enquanto instância burocrática, fazendo jus à hierarquização social não somente de raça, como também de gênero.

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Fonte: IPEA, 2011.

Desse modo, tendo em vista a existência e perpetuação desse tipo de racismo, o campo das políticas públicas denominado de ações afirmativas visa tanto reparar como prevenir a exclusão de determinados grupos a espaços institucionais, tendo como um de seus objetivos a garantia de igualdade de oportunidades e o combate aos preconceitos, desnaturalizando a hegemonia de um grupo racial sobre outro. No caso brasileiro, as formulações de estratégias legais no sentido de combate a esse tipo de racismo, apesar de limitadas, têm avançado de forma significativa. Por exemplo, no ensino básico e médio, foram feitas leis que visam valorizar a história e a cultura afro-brasileira nas escolas, dando fim à hegemonia presente no ensino da cultura européia. Já no Ensino Superior, as cotas raciais e sociais para ingresso nas universidades públicas tornaram-se obrigatórias em todo país, apesar dos discursos negativos e de não aceitação por parte da sociedade branca e de classe média a alta. Abaixo, o infográfico esquematiza o funcionamento de políticas de proteção social que visam combater a exclusão de minorias.

 

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Fonte: ONU Mulheres, 2013.

O problema do racismo institucional atravessa a problemática individual, passando a fazer parte de grandes organizações sociais e necessitando ações que dizem respeito a aspectos abrangentes da sociedade. Dessa forma, as políticas públicas feitas com o intuito de acabar com essa forma de preconceito devem atuar tanto no sentido de incluir os negros em serviços como educação e trabalho, quanto no sentido de controlar e ordenar a sociedade para que atitudes indiretas de exclusão, conseqüentes de preconceito racial, sejam devidamente vigiadas e punidas. No Brasil, desde a democratização iniciada na década de 1980, e principalmente com a ajuda do Movimento Negro, as esferas governamentais têm implantado diversas ações objetivando acabar com o racismo indireto e, por conseqüência, promover igualdade de raça, cor e etnia entre os indivíduos.

Assim, percebe-se a importância de ministérios e órgãos setoriais (federal, estaduais e municipais) na formulação, aplicação e monitoramento de políticas que possuam como intuito a inclusão da população negra em serviços de saúde, educação, trabalho, entre outros. O combate ao racismo precisa ser efetivado em todos os setores da vida pública.


¹Bolsista do PET Ciências Sociais.

 

LEITURAS COMPLEMENTARES

http://www.geledes.org.br/voce-e-racista-so-nao-sabe-disso-ainda/

https://libertarianismoedarwinismo.wordpress.com/2015/05/14/vies-inconsciente-de-discriminacao-racial-acao-afirmativa-e-respeito-ao-individuo/

http://www.marcusreis.com.br/2014/05/o-racismo-inconsciente.html

 

REFERÊNCIAS

SECCHI, L. Políticas Públicas – conceitos, esquemas de análise, casos práticos. São Paulo: Cengage Learning, 2010.

THEODORO, M. (Org.). As políticas públicas e a desigualdade racial no Brasil 120 anos após a abolição. Rio de Janeiro: IPEA, 2008.

WERNECK, Jurema et al. Racismo institucional: uma abordagem conceitual. ONU Mulheres, 2013. Disponível em http://www.onumulheres.org.br/wp-content/uploads/2016/04/FINAL-WEB-Racismo-Institucional-uma-abordagem-conceitual.pdf. Acessado em 10 de maio de 2017.

 

Propagandas “empoderadoras”: iniciativa ou demanda social?

As redes sociais são atualmente uma poderosa ferramenta de modificação e exposição do que é a sociedade brasileira. O que parece é que tudo hoje em dia gira em torno das redes sociais, tudo que é aceito ou rejeitado, certo ou errado, coerente ou incoerente passa pelo julgamento dos milhões de internautas brasileiros. Paralelamente a isso, diversas minorias (mulheres, negros e negras e homossexuais) se organizam e se manifestam via redes sociais, criando grupos e páginas de grande alcance, fazendo com que se comuniquem, troquem experiências, relatos e vivências cotidianas. Toda essa relevância que as redes sociais estão tomando em nossa sociedade, e a força e união que esses grupos minoritários estão adquirindo podem ser ilustradas no caso da publicidade, que está passando por uma grande revolução nos últimos três anos.

As campanhas publicitárias são um reflexo do nosso imaginário social, já que para serem aceitas e tornarem um produto desejado, é necessário que as propagandas fiquem dentro dos padrões vigentes. O que acontece atualmente é que as mulheres, negros e negras, homossexuais e qualquer outro grupo que seja uma minoria em relação a direitos civis mas uma maioria da população de consumidores não está mais aceitando qualquer tipo de campanha publicitária que seja ofensiva ou que faça apologia a qualquer tipo de violência e preconceito.

Uma pesquisa realizada pela SheKnows Media perguntou a cerca de 4 mil pessoas quais são suas opiniões sobre as “propagandas empoderadoras”. Os resultados mostram que 97% das mulheres entrevistadas acreditam que as campanhas publicitárias causam impactos sobre como a sociedade as vê. Além disso, 53% das mulheres que responderam o questionário já compraram produtos porque gostaram da forma como a figura feminina foi exposta na propaganda do produto.

Um dos exemplos reais da revolução publicitária que vem acontecendo pode ser observada no caso da marca de cervejas Skol. No período pré-Carnaval de 2015 a marca publicou em diversos outdoors e pontos de ônibus frases como “Esqueci o ‘não’ em casa” e “Topo antes de saber a pergunta”. Essas frases geraram muitas manifestações online por se tratarem de afirmações que podem ser associadas à apologia ao estupro. Por conta disso, a marca resolveu retirar a campanha, e se desculpou publicamente pela interpretação dúbia que a campanha causou.

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Porém, em 2017, a Skol está trazendo campanhas que tem como bandeira a quebra de estereótipos. Com o slogan “Redondo é sair do seu quadrado” a marca trouxe no verão um filme que estimula todos os tipos de pessoas a não terem vergonha de sair de casa por qualquer característica física, mas sim tendo orgulho de ser quem é.

Além disso, ainda mais recentemente, em abril deste ano, a Skol lança a coleção limitada de latas intituladas “Skolors”, que é inspirada nos diversos tons de pele do brasileiro. Essa coleção trouxe consigo um filme repleto de pessoas de todas as cores: albinos, ruivos, pessoas com vitiligo e negros.

Esse é só um dos muitos exemplos de marcas que vêm ao longo dos anos modificando as bandeiras de suas propagandas. É necessário atentar-se para o fato de que não são as marcas que estão tomando a iniciativa para diminuir a quantidade de machismo, racismo, homofobia e qualquer outro tipo de preconceito em nossa sociedade. As marcas realizam suas campanhas pois querem vender um produto para um tipo de público, e a forma como elas alcançam esse público hoje em dia é evitando ao máximo materiais com conteúdos sexistas, em um caso em que o público alvo seja feminino, por exemplo. Ou seja, essas campanhas são apenas um reflexo na modificação do nosso imaginário social, as pessoas estão cada vez mais conscientes das necessidades de mudanças em nossa sociedade, e a publicidade é só um exemplo de setor que está sendo afetado por essa nova onda, a tendência é que esses conceitos fiquem cada vez mais nítidos, diminuindo assim a quantidade de machismo e preconceito ao nosso redor, ou pelo menos incentivando as pessoas a terem força e voz para combater esse tipo de atitude.

Referências Bibliográficas

http://www.sheknowsmedia.com/attachments/3224/SheKnows-Media-Femvertising-Infographic-2016.pdf

http://thinkolga.com/2015/02/10/o-despertar-da-publicidade-para-mulheres/

http://www.forebrain.com.br/noticias/femvertising-o-empoderamento-das-mulheres-na-publicidade/

http://www.b9.com.br/59594/advertising/voce-sabe-o-que-e-femvertising/

https://www.cartacapital.com.br/blogs/feminismo-pra-que/a-representacao-da-mulher-na-midia-e-em-produtos-7011.html

http://www.administradores.com.br/mobile/noticias/marketing/como-o-ciberfeminismo-esta-moldando-uma-nova-publicidade/105731/

http://adnews.com.br/publicidade/o-ano-do-empoderamento-feminino-na-propaganda.html

Ana Heloise Lopes Diniz

 

 

Vinte anos de luto: As raízes do Manguebit

Por João Pedro Gonçalves

mague1Chico Science (esquerda) e Fred Zero Quatro, os expoentes do Manguebit. (Fonte: Revista Fórum)

Há vinte anos, mais exatamente no dia 2 de fevereiro de 1997, Chico Science bateu seu Fiat Uno num poste enquanto dirigia em alta velocidade no Complexo de Salgadinho, localizado na divisa entre Olinda e Recife. Com apenas trinta anos, morre um dos maiores expoentes musicais dos anos noventa, que apesar de ter deixado um legado imensurável na música e no debate a respeito dos paradoxos da sociedade pernambucana, ainda possuía muito a contribuir na cena musical e até no pensamento social brasileiro.

Com sede de transformações sociais, fascinado, mas ao mesmo tempo indignado com as contradições do capitalismo e da contemporaneidade, vivendo na quarta pior cidade em qualidade de vida no mundo, onde metade da população residia em favelas nos anos oitenta e noventa¹, Chico encontra no submundo cultural Recifense a banda “Mundo Livre S/A”, liderada por Fred Zero Quatro, principal idealizador do movimento Manguebit².

Assim como Chico Science, Fred fazia menções ao mangue, estabelecendo contrapontos e analogias entre o homem e o caranguejo, a cidade e o mangue. Sua principal inspiração foi retirada principalmente do único romance do grande cientista pernambucano Josué de Castro, “Homens e Caranguejos”, que conta a história de vida de um garoto pobre, que logo é jogado no mundo de miséria e lama do mangue, onde precisa trabalhar em uma comunidade na qual as estruturas do feudalismo agrário e do capitalismo se aglutinam. Em virtude dessas circunstâncias, o autor faz a analogia entre o menino e o mangue:

Seres humanos que se faziam assim irmãos de leite dos caranguejos. Que aprendiam a engatinhar e a andar com os caranguejos da lama e que depois de terem bebido na infância este leite de lama, de se terem enlambuzado com o caldo grosso da lama dos mangues, de se terem impregnado do seu cheiro de terra podre e de maresia, nunca mais se podiam libertar dessa crosta de lama que os tornava tão parecidos com os caranguejos, seus irmãos. (CASTRO, Josué, 1966, Pag. 12)

Josué de Castro é citado posteriormente por Chico Science na música que dá nome ao álbum, “Da Lama ao Caos”:

Ô Josué eu nunca vi tamanha desgraça

Quanto mais miséria tem, mais urubu ameaça”

Então, para eternizar e oficializar o movimento Manguebit, e tornar “mangue” um conceito, Zero Quatro escreve e distribui em 1992 o manifesto do Mangue, intitulado “Caranguejos com Cérebro3, que em apenas duas páginas, enaltece o mangue, faz críticas ao positivismo e ao conceito de metrópole enquanto a descreve e a relaciona com o mangue, apresentando analogamente os principais símbolos e objetivos do Manguebit. Para ilustrar, eis alguns trechos do manifesto:

Não é por acaso que os mangues são considerados um elo básico da cadeia alimentar marinha. Apesar das muriçocas, mosquitos e mutucas, inimigos das donas-de-casa, para os cientistas são tidos como símbolos de fertilidade, diversidade e riqueza.

(…)o desvario irresistível de uma cínica noção de *progresso*, que elevou a cidade ao posto de *metrópole* do Nordeste, não tardou a revelar sua fragilidade.

(…)O objetivo era engendrar um *circuito energético*, capaz de conectar as boas vibrações dos mangues com a rede mundial de circulação de conceitos pop. Imagem símbolo: uma antena parabólica enfiada na lama.

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Antena Parabólica fincada no Recife. (Fonte: modulação.wordpress.com O Recifense e a Contemporaneidade)

Em consonância musical, teórica e intelectual, com Zero Quatro, Science assina embaixo do manifesto, e os líderes do “Mundo Livre S/A” e “Nação Zumbi” respectivamente, agora também encabeçam um movimento cultural de grande impacto, principalmente para o underground do universo artístico recifense, onde nas periferias, em cantos obscuros da cidade, às margens do rio Capibaribe ou onde quer que fosse mais barato o aluguel para marcar uma festa, o som do Mangue ecoava e se expandia, até a explosão de “Da Lama ao Caos” em 1994, quando “Chico Science e Nação Zumbi” apareceram para o mundo.

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Trecho do Jornal do Commércio de 16 de Janeiro de 1997, publicado duas semanas após a morte de Chico Science. (Fonte: Biblioteca Nacional Digital)

Em relação à repercussão do Manguebit, é interessante notar que havia no contexto da década de noventa no meio artístico pernambucano, um grande culto à cultura popular local, que sustentava em parte o medo da globalização crescente, que aproximava cada vez mais ao Brasil o universo da música estrangeira, seus samplers, guitarras e outras tecnologias e técnicas musicais. Ariano Suassuna, grande ícone não só da literatura, mas da arte pernambucana como um todo, compartilhava e pleiteava com veemência esses ideais de uma arte local e pura até seu falecimento há quase três anos. Apesar de mais tarde endossar a arte de Chico Science – ou Chico Ciência como costumava o chamar – e até firmar com ele um reconhecido vínculo de amizade, Suassuna se mostrava refratário à suas práticas num primeiro momento. Em entrevista concedida à Folha de São Paulo4 para Vandeck Santiago, Ariano Suassuna explica porque excluiu Science de um projeto cultural em 1995: “(…) a fusão do rock com ritmos populares nordestinos, feita por Science, em vez de apoiar, prejudica a cultura popular”. Ainda sobre esse relacionamento, o jornalista pernambucano Xico Sá, amigo de Science, faz uma colocação dotada de graciosidade: Era uma provocação de artista pra artista que foi muito interessante pra cidade. Eles faziam parte de uma cena cultural muito forte e viram que uma coisa não eliminava a outra. O Chico colaborou mais pro pensamento do Suassuna do que o próprio purismo do movimento armorial”.

Em resumo, fica evidente o tamanho colossal do espiritualismo de Science e de sua contribuição para a cultura pernambucana e brasileira. Um homem que há vinte anos deixou o Recife em um verdadeiro estado de calamidade, incrédulo com sua partida. E mesmo com seu sincretismo escarrado da cultura popular nordestina, com elementos musicais novos e importados, conseguiu cativar o genial Suassuna, um de seus maiores críticos, e foi capaz de trespassar sua irredutível teimosia.

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Ariano Suassuna e Chico Science Representados em Bonecos de Olinda (Fonte: Autor, tirada de um banner próximo ao Marco Zero do Recife)

Notas de rodapé

  1. Informação retirada do documentário da TV Cultura “Movimento Mangue Beat 1995 – Chico Science e Nação zumbi, Mundo Livre S.A”, disponível em https://www.youtube.com/watch?v=–CJiadk4uk.

Aparece também em trecho da música “Antene-se”, de ”Chico Science e Nação Zumbi”

É só uma cabeça equilibrada em cima do corpo
Escutando o som das vitrolas que vem dos mocambos
Entulhados à beira do Capibaribe
Na quarta pior cidade do mundo

  1. Fred Zero Quatro e todos os envolvidos na criação do termo originalmente grafaram “Manguebit”, mas mais tarde o termo foi grafado pela grande mídia como “Manguebeat”. O próprio Zero Quatro endossou ambas as formas de grafia.
  1. Manifesto disponível na íntegra http://projetoautonomiaemcepag.xpg.uol.com.br/Caranguejos%20Com%20C%C3%A9rebro.pdf

  1. Entrevista disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/1995/6/23/ilustrada/8.html

    Referências 

Revista Ciberlegenda/UFF – Ano 10 – número 20 – junho/2008 MANGUEBEAT E A         CONSTRUÇÃO DA CULTURA EM REDE. NERCOLINI, Marildo José.

https://www.cartacapital.com.br/cultura/o-grito-do-mangue-ainda-ecoa-em-chico-science.

[SELEÇÃO DE BOLSISTAS PET]

 

Pessoal, está aberto o edital de seleção de bolsistas para o PET. As vagas são destinadas para estudantes do 3º ou 5º período e as inscrições poderão ser feitas até dia 03/03/2017.
Para a seleção, serão analisados o histórico escolar e uma carta de motivação de até uma página escrita pelo candidato.
Participem

O PET está em greve

Em reunião no dia 31 de outubro, nós, do PET Ciências Sociais, decidimos pela entrada do grupo na greve geral dos estudantes da UFPR. Entendendo a necessidade de mobilização, apoio e alargamento da greve aos demais setores da universidade, as atividades do grupo foram inteiramente paralisadas. Assim como o PIBID e outros projetos de extensão que já declararam sua paralisação e apoio, o PET declara agora seu total suporte à greve dos estudantes da UFPR.

Percebemos, como foi colocado diversas vezes na Assembleia geral dos estudantes da universidade, a necessidade latente em alargar e construir um espírito de mobilização e integração dos estudantes para a greve. Neste sentido, dar continuidade às atividades do grupo ou mesmo não declarar nosso apoio, como estudantes e petianos, seria furar a greve e deslegitimar a ação dos demais discentes que estão continuamente mobilizados em prol da mesma. Como grupo e como estudantes de Ciências Sociais, nós estamos em greve contra a PEC 241 (PEC 55), os cortes na educação – já iniciados no governo do PT, a medida provisória 746/16 (que institui as mudanças no ensino médio) e em apoio e inspirados pelo exemplo dos secundaristas de todo Brasil.

Ainda que declarando este apoio tardiamente, endossamos as posições tomadas na Assembleia geral dos estudantes da UFPR e na assembleia do curso de Ciências Sociais. Acreditamos no peso e necessidade das ocupações e, sobretudo, acreditamos nas ocupações como atos políticos de oposição às medidas e projetos que já nos têm afetado diariamente e nos afetarão futuramente. Como estudantes, temos visto seguidamente a qualificação das ocupações como invasões e, aqui, aproveitamos nosso espaço de fala para reiterar mais uma vez, como todos aqueles já mobilizados, que chamar a ação dos estudantes de invasão é criminalizar e deslegitimar uma luta árdua, organizada e fundamentada. A ocupação dos prédios da UFPR, cada vez maior e alargada para outros setores da universidade, é legal e necessária; uma medida adotada de maneira democrática e legítima nas assembleias dos estudantes e dos cursos da UFPR. Ademais, é calcada na impossibilidade de diálogo com as autoridades acadêmicas, políticas, legais etc, que não nos escutam, que não nos recebem nem nos procuram, que desqualificam nossas ações e invisibilizam continuamente a luta dos estudantes por todo Brasil.

Sabemos da dificuldade em construir essa luta, especialmente se tratando da disputa por espaços de fala e de visibilidade. A deflagração da greve, neste momento, exige, por um lado, a postura dos estudantes em dialogar com os professores, tutores, orientadores (sabemos, contudo, da impossibilidade em interromper determinados projetos por razões inúmeras) e, por outro, de nos mobilizarmos para a construção e debate das demandas que originaram a greve dos estudantes.

Muitos de nós, cientistas sociais, seremos licenciados no futuro, isto é, atuaremos (ou atuaríamos) como professores de sociologia no ensino médio. Propostas como a medida provisória 746 nos afetam diretamente, pois ao retirar nosso conteúdo de ensino das escolas, estão retirando nossa possibilidade de trabalho. Ainda assim, se nos restasse a possibilidade de formação e carreira acadêmica, os diversos cortes na educação têm enxugado cada vez mais a oferta de bolsas de auxílio econômico, restringindo o espaço do ensino superior apenas àqueles com suporte econômico e social. Entendemos, assim, que as pautas que exigiram e continuam a exigir a greve dos estudantes dizem respeito, em muitos aspectos, à luta por uma universidade com abertura real às mulheres, negros, comunidade LGBT, pobres e todos aqueles que a sociedade brasileira têm impedido historicamente de acessar e participar ativamente da construção do ensino superior no Brasil.

Ademais, medidas como as propostas pela PEC 55 e pelos cortes de gastos com a educação já nos mostraram, em retrospectiva histórica, que as decisões tomadas pelas autoridades políticas no sentido de afunilar ainda mais a entrada no ensino superior, retirar e restringir os direitos e auxílios que mantêm parte dos estudantes nas universidades, além da reforma do ensino médio, sobretudo com a exclusão optativa (sic) das disciplinas de formação crítica, jamais representaram avanço ou desenvolvimento ao país! Estas medidas terminam, antes, por sucatear e reproduzir o ciclo elitista do ensino superior brasileiro que, por sua vez, reproduz um sistema de classes em que a maioria da população está profundamente distanciada da educação e de trabalhos devidamente remunerados. Os resultados são, de maneira geral, uma população majoritariamente trabalhadora e explorada, criada neste sistema de impedimento ao acesso às “qualificações” e educadas para um futuro de ainda mais exploração.

É neste contexto que nós, estudantes, necessitamos agir com urgência e nos apoiar para o alargamento, debate e significação da greve geral agora, em novembro de 2016.